Archive for Junho, 2009

O que aprendemos (ou devíamos ter aprendido) com Michael Jackson.

O ano é 1990, eu tenho cinco anos de idade e estou dançando Thriller na sala da minha vó pra uma câmera. Alguns anos mais tarde o vinil de Dangerous que eu havia ganhado no natal já estava quase furando de tanto que tocava. Eu punha o disco pra tocar, deitava no sofá da sala e fechava os olhos. Era o meu ritual. A partir daí a música nunca mais deixaria de ser parte da minha vida. Eu comia, dormia e respirava música. 

25 de junho de 2009, estou na faculdade. Acabo de entrar na sala para uma aula de roteiro e um amigo meu diz “Michael Jackson morreu”. Mentira. Imagina, Michael Jackson morto? Impossível. Entramos na internet pelo PC que tem na sala de aula. A CNN dizia que ele havia sofrido um infarto. Minutos depois, F5: Michael Jackson está em coma. No terceiro e último F5 a confirmação: morto. Morto? Não, impossível.

 Voltei pra casa fazendo piada como todo mundo (“Michael não morreu, foi pra Terra do Nunca”, entre outras ainda menos criativas) mas ainda não era real. “Isso é um factóide! Um viral pra promover a turnê!” eu dizia meio brincando e meio querendo acreditar. No dia seguinte ouvi Earth Song que sempre me deu um nó na garganta e a ficha finalmente caiu. Michael Jackson, minha principal inspiração, estava M O R TO. Acho que ainda não sei direto o que isso significa. 

Nunca fui fã de MJ do tipo que coleciona coisas (apenas os vinis e Cds, que tenho todos) e dedica boa parte do seu tempo ao ídolo (dedicação esta que tenho apenas por vcs-sabem-quem) mas sempre carreguei a música e as mensagens de Michael comigo além das referências que formam boa parte do meu repertório pop. Mas o que me impressiona mesmo é o que ele representa. Vivemos em uma cultura da imagem e se tem alguem que explorou e foi explorado ao extremo por esta lógica esse alguém é MJ. Michael é o triste retrato de uma sociedade com sérios problemas de auto-imagem.

 Alguma das milhões de reportagens a que assisti nos últimos três dias dizia que Michael havia sido devorado pela indústria da música que ele mesmo havia ajudado a erguer. Na verdade é uma indústria da imagem, estética e audiovisual e que, de fato, ele ajudou a construir. Michael não revolucionou só a música pop como inventou o videoclipe na forma como conhecemos hoje. Thriller não é apenas um video de monstros, assim como Moonwalker não é apenas um filme musical. Não só o aparato tecnológico era de última geração como a linguagem era totalmente inovadora. Quem ainda não sabe precisa saber que boa parte do que temos nesse campo hoje devemos a ele. 

Um outro legado não tão digno de orgulho mas não menos significativo foi o fomento de uma indústria que se alimenta de celebridades fora de controle. Esqueça Britney Spears de cabeça raspada atacando paparazzis com um guarda-chuva, isso é bem mais antigo. Foi este cenário que me fez sentir tão mal nas últimas horas: a hiperexploração do caso pela mídia (não que eu tenha esperado alguma outra coisa, mas…) e o fato de grande parte das pessoas ainda estar alheia ao que essa morte representa não só para a cultura pop mas para a sociedade atual como um todo.

 Michael era a ponta do iceberg, a parte mais visível de um grande corpo em estágio avançado de decomposição. “No one understands me. They view it as such strange eccentricities.” diz a letra de Childhood, que, aliás, é a sua música mais tocante pra mim. “Have you seen my childhood? I’m searching for the world that I come from.” Mais autobiográfica impossível.  

Esse fato ocorreu precisamente num momento meio complicado pra mim e isso pode explicar o tom depressivo e pessimista desse post. Talvez a TPM também tenha ajudado no fato de eu não conseguir mais ouvir Stranger in Moscow sem chorar (“How does it feel when you’re alone and cold inside. Like a stranger in moscow.”). Mas acho que finalmente consegui tirar algo de muito bom disso tudo: a força pra promover uma mudança geral na minha vida. “If you wanna make the world a better place, take a look at yourself and then make a change” diria ele, e é exatamente o que vou fazer agora.

No mais, as palavras rest in peace nunca foram tão apropriadas. Espero mesmo que ele possa finalmente descansar agora.

1 comment Junho 29, 2009

Eu e Nick Hornby numa tarde fria de domingo.

0140293469.01._SCLZZZZZZZ_hornbyboekhornby-highfidelity-smalln58545HornbysHighFidelity

Sabe aquelas músicas lindas mas que você evita ouvir para não se entristecer e só ouve mesmo quando a coisa já está feia e o único jeito é afundar na depressão de vez? (Top 5 Fundo do Poço soundtrack: Tears of the Dragon do Bruce Dickinson, Back to Black da Amy Winehouse, There’s a light that never goes out do Smiths ,  Gota d’água do Chico Buarque e Since I’ve been lovin’ you do Led Zeppelin.) É o que acontece comigo e este livro, Alta Fidelidade (e com o filme também, que eu conheci primeiro). Eu me identifico com o personagem principal de uma forma que não é normal, principalmente com a sua incapacidade de agir em determinadas situações.  Por isso é no minimo contraditório que eu recorra a ele quando estou procurando por respostas. Geralmente eu as encontro, como nos trechos que eu vou reproduzir abaixo e que eu estava lendo ontem, deitada no sofá da sala, debaixo do edredom, numa tarde de domingo, quando não tinha ninguem no MSN pra eu encher o saco, bebendo todynho, enfim, cenário de total abandono.

I know I’m being stupid, but I don’t want her coming to my shop. If she came to my shop, I might really get to like her, and then I’d be waiting for her to come in all the time, and then when she did come in I’d be nervous and stupid, and probably asking her out for a drink in some cackhanded roundabout way, and either she wouldn’t catch my drift, and I’d feel an idiot, or she’d turn me down flat, and I’d feel an idiot. And on my way home after the gig, I’m already wondering whether she’ll come tomorrow, and whether it will mean anything if she does, and if it does mean something, then which one of us it will mean something to, although Barry is probably a non-starter.
Fuck, I hate all this stuff. How old do you have to get before it stops?

A pergunta da última sentença resume tudo. Quer dizer, quando isso vai parar? Quantas vezes eu ainda vou ter de me sentir uma idiota perto de alguém até que as coisas comecem a funcionar como devem? Além disso “eu sei que estou sendo estúpido”, se não é a frase que eu mais digo, é a que passa pela minha cabeça com a maior frequencia.

CdHighFidelityUm amigo escreveu uma vez: “Quando me apaixonava por alguém, era capaz de me sentir mais feliz entre o instante em que o sentimento era detectado e o ‘eu acho que estou apaixonado por você’ do que após o tão aguardado ‘eu também’.” Comigo é o exato oposto. Toda vez que me dou conta de que estou (arg!) apaixonada por alguém, ou gostando de, ou afim de, ou having a crush on, ou dê-o-nome-que-quiser por alguém minha vida vira um caos porque eu sei que, apartir daquele exato momento, eu vou começar a fazer coisas sem pensar. Pronto, lá vamos nós agir como idiota de novo, falar coisas estúpidas e sem sentido só pra mantêr a conversa, arrumar desculpas imbecis pra estar perto, fazer papéis ridículos só pra ser notada (felizmente eu muito raramente chego a esse último estágio, mas já aconteceu. Atire a primeira pedra quem já não fez o mesmo). Mas o que me incomoda mesmo é que é sempre a mesma coisa. It all starts the same way and it all ends up the same way. A repetição me incomoda profundamente e ver minha vida presa num círculo vicioso, num looping sem fim, é o que me angustia nesse momento.

Começo a achar que é exatamente por isso que Sinédoque me incomodou tanto. Desde que vi esse filme eu estou tentando achar a razão pela qual me senti tão angustiada com ele. É sempre a mesma história se repetindo, as vezes muda um detalhe ou outro mas isso não é suficiente pra que as coisas tomem outro rumo. Nem os personagens mudam, só quem os interpreta. Isso é Sinédoque, isso é a minha vida.

O que  nos leva diretamente de volta ao Nick:

It’s only just begining to occur to me that it’s important to have something going on somewhere, at work or at home, otherwise you’re
just clinging on. If I lived in Bosnia, then not having a girlfriend wouldn’t seem like the most important thing in the world, but here in Crouch End it does. You need as much ballast as possible to stop you floating away; you need people around you, things going on, otherwise life is like some film where the money ran out, and there are no sets, or locationg, or supporting actors, and it’s just one block on his own staring into the camera with nothing to do and nobody to speak to, and who’d believe in this caracter then? I’ve got to get more stuff, more clutter, more detail in here, because at the moment I’m in danger of falling off the edge.

sinedoquePenso que o problema todo está em ser coajuvante da própria vida. Por mais que você possa, vez por outra, roubar a cena e se tornar extremamente necessário, como um Heath Ledger da vida, você sempre vai precisar de um ator principal, sem o qual simplesmente não tem filme. Tem gente que faz disso um estilo de vida, ser coajuvante, é uma escolha, mas eu escolho ser protagonista, não só da minha vida mas de outra pessoa também, para mais tarde ter com quem dividir o prêmio, nem que seja o de melhor filminho romântico tipo B, daqueles bem bobinhos que terminam com “e eles foram felizes para sempre”.

Para ouvir omeu Top 5 Sad Songs clique aqui.

Cenas dos próximos capítulos: Dia desses vi um filme na sessão da tarde, Fever Pitch, e AMEI, me identifiquei horrores (além de ter a fofíssima da Drew Barrymore). Assim que terminou fui googlear a respeito e descobri que era baseado num livro do (taram!) Nick Hornby. Curious, han?!

1 comment Junho 8, 2009


Sobre o blog:

Música, cinema, literatura, TV, games, quadrinhos e nerdices afins. Tudo o que couber no guarda-chuva da Cultura da Mídia.

email: midcultpop@gmail.com

Categorias

Tópicos recentes

Tags

60's alta fidelidade altamont amy winehouse anos 60 ao vivo arnaldo antunes backstreet boys Beirut Black Sabbath Boy Bands BSB Capitu charlie kaufman chico buarque contracultura documentário fãs gimme shelter hell's angels hendrix iron maiden Led Zeppelin Lost Maria Antonieta michael jackson Música Música Pop nick hornby pitty Podcast rei do pop rip rock rock 'n roll rolling stones Sex Pistols sinédoque Sophia Coppola the smiths the who This Is Us tommy top 5 woodstock

Arquivos

Acesse também

Blogs de amigos

Links recomendados