Archive for Outubro, 2008

O pulso.

A couple of years ago I went to see Al Green in concert in the Royal Albert Hall in London. At one point he left the stage and walked through the audience, still singing. As he passed me I realized that this was the first time, in 30 years as a pop fan, that I’d ever heard a star’s “natural” voice!
(FRITH, Simon. The industrialization of popular music. In: LULL, James (org.). Popular music and communication. Newbury Park, London, New Delhi: Sage Publications, 1992. p. 49)

Primeiro preciso registrar uma coisa: eu nunca tinha ido a um show sozinha. Quer dizer, eu fui a um show do Angra sozinha uma vez, mas não é a mesma coisa, porque eu sabia que encontraria (e encontrei) mil conhecidos por lá. Dessa vez não encontrei nenhum conhecido, apesar das minhas olhadinhas nervosas pra tras e pros lados. Pra completar haviam três desconhecidos na minha mesa, o que era muito esquisito e muito bom ao mesmo tempo, porque, já que eram desconhecidos eu não sentia a menor obrigação de ser cortêz ou simpática. Veja bem, não é que eu fosse anti-social, eu só não sentia OBRIGAÇÃO de socializar, o que é muito diferente. Um dos meninos puxou assunto sobre a Pitty e eu até respondi, com vontade, mas logo o assunto se extinguiu na espera pelo show (que tava demorando).

O evento começou com 40 minutos de atraso (Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão.) e o Guilherme Piva e a Bia Kutner entraram pra falar do projeto. Em determinada altura do discurso eles se referiram as beneficiandos pelo projeto, ou seja, os maluquinhos, como portadores de angústia psíquica. “Angustia psíquica tenho eu”, pensei. Mas era véspera do meu aniversário, convinha evitar certos tipo de pensamento. Aí veio o show da banda de abertura: Os Impacientes. Eles eram mineiros e tocavam pop-rock (skank? Jota Quest? argh!). Eram desritmados, o vocalista era desafinado mas, juro, foram eles que começaram a me fazer feliz naquele dia (um dia que tinha começado pessimamente e tinha tudo pra terminar pessimamente). Pode até ser clichêzão o que eu vou dizer, até porque, o Raul já cansou de cantar a loucura por aí, mas eles eram de uma SINCERIDADE que me deixou muito emocionada. Claro que isso tem a ver com um monte de discursos acerca de autenticidade e outras coisas que eu tenho pesquisado nos últimos meses (aliás, eu tenho feito alguma coisa além de pesquisa acadêmica?), e esses dados que eu carrego comigo foram responsáveis também por um certo desconforto com o início do show do Arnaldo Antunes.

Explico-me: mesmo quem não curte Titãs ou não assiste Altas Horas tem mais ou menos uma imagem do Arnaldo na cabeça. “Maluco” deve corresponder ao que a maioria pensa. Pois bem, ele estava vestido, como direi?, vestido como um paciente do Doutor Eiras. Aquilo me incomodou porque me pareceu forçado, excessivamente construído e um pouco de mal gosto. Mas eu rapidamente esqueci essas coisas todas quando ele começou a declamar suas músicas e fazer suas dancinhas epilépticas que eu me amarro. Mas Não vou me adaptar foi o que quase me derrubou (Parêntese: eu passei os dias que antecederam meu aniversário e durante o mesmo tentando so hard não me deprimir. E me vem o Arnaldo com essa!) Cada verso daquela música correspondia quase que totalmente ao que eu sentia, ou aos sentimentos que eu estava lutando contra. “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia /Eu não encho mais a casa de alegria/ Os anos se passaram enquanto eu dormia/ E quem eu queria bem me esquecia/ Será que eu falei o que ninguém dizia?/ Será que eu escutei o que ninguém ouvia?/ Eu não vou me adaptar, me adaptar”. Não me lembro se foi antes ou depois disso, mas aconteceu um momento quase mágico. Foi quando ele desceu do palco e começou a andar entre as mesas. Nessas horas eu vejo muito claramente a divisão entre meu lado racional e o emotivo: Meu olhar se revezava entre a visão do Arnaldo andando no meio das pessoas e o desespero do roadie em desenrolar o cabo do microfone pra que ele pudesse andar. Quando o cabo já estava esticado até o limite ele parou e se virou para o palco. O holofote principal iluminava a cabeça dele, acima de todas as outras, o corpo perdido entre os das pessoas sentadas, e foi justamente numa parte da música em que os instrumentos páram e fica só a voz dele. Teria tudo isso sido ensaiado? Prefiro acreditar que não. Mas o deslumbramento não pára por aí. De repente me lembrei do texto citado no começo deste post (muito nerd! putaquepariu) e me dei conta de que, enquanto ele passava bem do meu lado eu pude ouvir a VOZ dele. Não a voz amplificada, a voz PURA, sem mediação. Digamos que foi uma constatação divertida, e ultimamente minha vida anda cheia de constatações divertidinhas desse tipo, principalmente com relação à música (e o que na minha vida não tem a ver com música?).

O fato é que ao chamar a Pitty pro palco a figura do Arnaldo praticamente se apagou. E ela brilhava, como sempre. Num vestidinho roxo, maquiagem pesada demais pro meu gosto, mas linda assim mesmo. Os dois tocaram O Pulso, o que eu tinha certeza que aconteceria, mas tudo bem, foi bacana assim mesmo. E eu podia ficar aqui discursando sobre o conceito de autenticidade aplicado à figura da Pitty, mas não quero gastar meu academiquês aqui, de graça, e desconfio que ninguem está interessado. O que importa é que eu esperava uma espécie de acústico, pra poder ficar admirando a figura dela, sentada confortavelmente, bebendo qualquer coisa (acho que estou ficando velha. Gostar de assistir à shows sentada, definitivamente, é um sinal de velhice). Mas ela apresentou, praticamente, uma versão resumida do Desconcerto e eu fiquei feliz por as duas primeiras fileiras estarem ocupadas por convidados que não gostavam da música dela: eu pude assistir ao show sentada anyway pq ninguem na minha frente resolveu se levantar pra balançar os esqueletos ao som do bom e velho rock and roll. A merda são os garçons do Canecão passando na sua frente nas melhores horas né! (Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão.) E o som? Taquepariu… nem quero lembrar pra não me aborrecer.

Enfim, ela chamou o Arnaldo de novo e os dois cantaram Televisão. Momento perfeito. Mas não mais perfeito que Pulsos. Pulsos é a minha música, definitivamente. “E um dia se atreveu/ a olhar pro alto/ tinha o céu mas não era azul”. Tem a ver com um momento da minha vida que passou (e eu sinto uma puta sensação de alívio por isso) mas eu ainda sinto um pouco os efeitos, pq ainda é bastante recente.“No cansaço de tentar/ quis desistir/ se é coragem eu não sei”. Olhei no relógio, já havia passado alguns minutos da meia-noite, já era meu aniversário. 23 anos, what does it mean? Prefiro não pensar muito nisso por enquanto e ficar só com a imagem e a voz da Pitty na cabeça. “Tenta achar que não é assim tão mau/ Exercita a paciência/ Guarda os pulsos por final/ Saída de emergência”


Add comment Outubro 19, 2008


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Música, cinema, literatura, TV, games, quadrinhos e nerdices afins. Tudo o que couber no guarda-chuva da Cultura da Mídia.

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