A voz do dono e o dono da voz

Fevereiro 6, 2008

 Qualquer pessoa que me conheça minimamente sabe, entre outras coisas, que eu amo música. Qualquer pessoa que preste um pouco mais de atenção descobre que eu dou atenção especial às letras das músicas. Não é só o que está sendo dito, a mensagem em si, mas é, principalmente a forma, a estrutura das frases, as rimas. Existe também um terceiro fator que so me dei conta há pouco tempo que é o modo como as coisas são ditas.

Isso me lembra uma parte da palestra do Felipe Trota lá em Recife (a única parte que ficou na minha cabeça) em que ele falava do modo como a letra é interpretada pelo cantor e como isso influencia na reação do ouvinte( ou algo assim).  Ninguém duvida da importancia disso e basta lembrar, por exemplo, do Peninha e de como as suas músicas fazem sucesso na mão (ou na voz) de grandes intérpretes, mas na sua voz são um desastre. Até o Chico Buarque sofre disso em menor grau. Mas quando eu penso em intérprete o primeiro nome que me vem a cabeça é Serj Tankian, vocalista do System of a Down e meu sonho de consumo.

tankian.jpg

Eu ja disse aqui e repito: eu me casaria com ele só por causa dessa voz. De uma maneira racional e técnica eu diria que ele tem controle absoluto sobre a voz, não só a técnica vocal mas as emoções que ela é capaz de transmitir. Ele passa do mais puro ódio a mais profunda solidão em milésimos de segundo. Eu quase posso sentir os seus pulmões se enchendo de ar, a pressão na garganta aumentando e as cordas vocais vibrando até sair uma nota nervosa. E logo em seguida os músculos relaxam, a pulsação fica mais lenta, a respiração mais profunda, o peito aperta e um lamento ecoa baixinho.

Depois que o turbilhão de emoções passa eu fico me perguntando “como este filho da puta consegue?”. Quer dizer, não é só o que ele está dizendo que parece ter sido escrito pra mim mas o modo como ele canta é exatamente como eu estou me sentindo.  “You don’t care about how I feel. I don’t feel it anymore.” São duas estrofes extremamente simples (aliás, essa letra inteira é muito simples). Mas ele canta como se realmente quisesse matar o sentimento, arrancar do peito à força. Just like me… 

serj1.jpg

Essa música inteira sou eu. Cada acorde. Aquele solo então! E é aí que entra um outro elemento que me faz pensar que a voz, na verdade, tem vontade própria, como na música do Chico Buarque. Também já disse nesse blog que provavelmente eu me identifico tanto com as músicas do System of a Down por elas terem muitos altos e baixos. Se considerarmos que a voz comanda todo o resto as vezes parece que ele está tentando “domá-la” o tempo todo.  Como se estivesse tentando controlar as emoções mas nem sempre conseguisse evitar os rompantes de euforia ou ódio.

Contraditório, eu sei. Mas fica(m) a(s) perguntas(s): até que ponto ele é o dono da voz? Até que ponto ele a controla ou deixa que ela o controle? O que eu sei é que quando ele canta “I got nothing. To gain, to lose.” eu acredito. Seja lá quem esteja falando nesse momento, se a voz do dono ou o dono da voz.

 ” Foi revelada na assembléia – atéia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz
E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi pedendo a luz e além
E disse: Minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém”

Hey you, see me, pictures crazy
All the world Ive seen before me passing by
Ive got nothing, to gain, to lose
All the world Ive seen before me passing by
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
Hey you, are me, not so pretty
All the world Ive seen before me passing by
Silent my voice, Ive got no choice
All the world Ive seen before me passing by
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
I dont see, anymore
I dont hear, anymore
I dont speak, anymore
I dont feel

Entry Filed under: Música. .

6 Comments Add your own

  • 1. Eru Ilúvatar  |  Fevereiro 6, 2008 at 5:48 am

    Esse Felipe Trota não é um cara aqui do Rio que organiza eventos de Star Wars no forte de Copacabana não né?

    Responder
  • 2. patriciamatos  |  Fevereiro 6, 2008 at 1:54 pm

    Até onde eu sei ele é da UFPE.

    Responder
  • 3. Hugo  |  Fevereiro 6, 2008 at 9:31 pm

    Teve um dia que eu tava tocando violão lá na ECO… toquei ATWA e só uma menina conhecia. Fiquei bolado e parei no meio. Na próxima vez eu te chamo pra ouvir =P

    E o Serj é fodão mesmo… embora o Daron Malakian fosse fundamental no som dos caras. Sei lá, eu gosto de guitarristas que fazem um backing vocal fodão, tipo o John Frusciante no Red Hot. O Serj sozinho eu não acho tão legal. Num sei se é porque a “Empty Walls” é chata por si só ou é porque eu já me acostumei com os dois cantando juntos.

    [i]Dooo weeeee, do we knooooow when we flyyyyy[/i]

    Responder
  • 4. Hugo  |  Fevereiro 6, 2008 at 9:32 pm

    e porra, num dá pra colocar esta merda em itálico nos comentários?

    Responder
  • 5. patriciamatos  |  Fevereiro 6, 2008 at 9:36 pm

    Sim, sim! O Daron é fundamental. Lost in Hollywood é praticamente só a voz dele e é fodona. Mas a performance vocal dele é totalmente diferente da do Serj e, como deu pra perceber, sou apaixonada pelo Serj.

    Tá ligado que vai ter que tocar ATWA pra mim né?

    Responder
  • 6. Jesus  |  Fevereiro 22, 2008 at 11:55 am

    Acho uma pena que os intérpretes sejam pouco valorizados hoje em dia. As pessoas confundem o conceito de originalidade.

    Responder

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