Sinestesia
Novembro 6, 2007
O termo sinestesia é mais comumente conhecido como uma figura de linguagem mas pode designar também uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica em que um estímulo em um sentido provoca uma reação automática em outro. Algumas combinações de sentido são relativamente comuns como, por exemplo, ouvir um som e associar a uma cor ou imagem. Reza a lenda que Jimi Hendrix experimentava sensações sinestésicas, (mas ele experimentava também LSD, portanto seria impossível confirmar isso.) o mesmo dizem de Jim Morison.
De qualquer forma um músico que saiba explorar isso estaria adicionando novos elementos a harmonia funcional. A saber, a harmonia funcional é a parte da teoria musical que estuda os efeitos da escolha dos acordes e dos intervalos na reação do ouvinte, ou seja,o que faz com que uma música soe triste ou alegre, entre outras coisas. O uso de distorções, pedais de efeitos e sintetizadores também são instrumentos úteis para extrapolar os limites sonoros dos acordes e criar novos timbres.
Pra mim o que marca os anos 60 é esta necessidade de extrapolar os limites da música. De repente só ter uma guitarra e saber toca-la não adiantava, você precisava ter um amplificador com uma boa distorção (Hendrix construiu o seu próprio amplificador.), ter bons efeitos e ainda tocar de maneira a se destacar dos outros. Mais do que elevar o rock a um status de arte a década de 60 reinventou a arte e seus limites. O rock progressivo levaria isso a um nível além com sintetizadores e tudo o mais que desse sensação de viagem no tempo.
Por esse motivo o rock começou a desenvolver uma certa obsessão pela técnica, não só a técnica da execução mas a técnica de produção. Um músico que se preocupa apenas em tocar raramente sabe que a posição do microfone e até a temperatura que estiver dentro do estúdio influenciam no som, no timbre dos instrumentos. Por isso ter o controle de todo o processo se torna muito importante e a maioria dos músicos desta época em diante tem consciência disso. Por outro lado a técnica nunca superava a criatividade, a primeira estava sempre a serviço da segunda. O riff inicial de voodoo child , por exemplo, não seria o mesmo sem o wah-wah e o reverb, só dois dos quase cem efeitos possíveis.
Com certeza esses músicos também eram bons o suficiente para reproduzir o que faziam no estúdio ao vivo, técnica de execução não faltava a nenhum deles. Mas isso seria só o esperado e em termos de performance também era preciso romper barreiras mais do que simplesmente executar bem a música. As performances sempre tinham um quê de contestação. De fora ver o The Who destruindo os instrumentos poderia parecer apenas excentricidade ou rebeldia. Mas um instrumento pra um músico não é uma coisa a toa, é uma extensão de si mesmo. Então acho que não seria forçar muito a barra dizer que eles não queria só chocar os pais e deixar os adolescentes deslumbrados, (embora tenham conseguido isso)queriam desconstruir a própria noção de arte e da reprodutibilidade técnica. Traduzindo: o instrumento é só um meio de dar vazão a sua criatividade mas a criatividade não deve ser limitada por ele.
Levam esta idéia às ultimas conseqüências ao questionar até o limite dos sentidos e Tommy é o exemplo máximo da extrapolação dos limites técnicos,criativos e sensoriais dos anos 60. “He ain’t got no distractions. Can’t hear those buzzers and bells. Don’t see lights a flashin’, plays by sense of smell. Always gets a replay , never tilts at all. That deaf, dumb and blind kid sure plays a mean pinball.” Bem sinestésico, não?!
Entry Filed under: Música. Tags: 60's, hendrix, rock, the who, tommy.
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1.
Jesus | Dezembro 8, 2007 at 8:57 pm
Eu tenho que confessar uma frustração minha: nunca consegui gostar de The Who. Eu tenho o Tommy, comprei com a melhor das intenções, mas só consigo ouvir em músicas separadas, nunca o conjunto. Depois baixei os outros e me concentrei no “Who’s Next”. Mesma coisa. Alguém me disse “Como assim??? E a bateria, presta atenção no keith Moon!!”. E eu prestei, e ele evidentemente tem técnica, mas simplesmente não consigo o “efeito sinestésico”, por assim dizer, com eles. Vai saber…