Publicado por: Patrícia Matos em: Junho 29, 2009
O ano é 1990, eu tenho cinco anos de idade e estou dançando Thriller na sala da minha vó pra uma câmera. Alguns anos mais tarde o vinil de Dangerous que eu havia ganhado no natal já estava quase furando de tanto que tocava. Eu punha o disco pra tocar, deitava no sofá da sala e fechava os olhos. Era o meu ritual. A partir daí a música nunca mais deixaria de ser parte da minha vida. Eu comia, dormia e respirava música. 
25 de junho de 2009, estou na faculdade. Acabo de entrar na sala para uma aula de roteiro e um amigo meu diz “Michael Jackson morreu”. Mentira. Imagina, Michael Jackson morto? Impossível. Entramos na internet pelo PC que tem na sala de aula. A CNN dizia que ele havia sofrido um infarto. Minutos depois, F5: Michael Jackson está em coma. No terceiro e último F5 a confirmação: morto. Morto? Não, impossível.
Voltei pra casa fazendo piada como todo mundo (“Michael não morreu, foi pra Terra do Nunca”, entre outras ainda menos criativas) mas ainda não era real. “Isso é um factóide! Um viral pra promover a turnê!” eu dizia meio brincando e meio querendo acreditar. No dia seguinte ouvi Earth Song que sempre me deu um nó na garganta e a ficha finalmente caiu. Michael Jackson, minha principal inspiração, estava M O R TO. Acho que ainda não sei direto o que isso significa.
Nunca fui fã de MJ do tipo que coleciona coisas (apenas os vinis e Cds, que tenho todos) e dedica boa parte do seu tempo ao ídolo (dedicação esta que tenho apenas por vcs-sabem-quem) mas sempre carreguei a música e as mensagens de Michael comigo além das referências que formam boa parte do meu repertório pop. Mas o que me impressiona mesmo é o que ele representa. Vivemos em uma cultura da imagem e se tem alguem que explorou e foi explorado ao extremo por esta lógica esse alguém é MJ. Michael é o triste retrato de uma sociedade com sérios problemas de auto-imagem.
Alguma das milhões de reportagens a que assisti nos últimos três dias dizia que Michael havia sido devorado pela indústria da música que ele mesmo havia ajudado a erguer. Na verdade é uma indústria da imagem, estética e audiovisual e que, de fato, ele ajudou a construir. Michael não revolucionou só a música pop como inventou o videoclipe na forma como conhecemos hoje. Thriller não é apenas um video de monstros, assim como Moonwalker não é apenas um filme musical. Não só o aparato tecnológico era de última geração como a linguagem era totalmente inovadora. Quem ainda não sabe precisa saber que boa parte do que temos nesse campo hoje devemos a ele.
Um outro legado não tão digno de orgulho mas não menos significativo foi o fomento de uma indústria que se alimenta de celebridades fora de controle. Esqueça Britney Spears de cabeça raspada atacando paparazzis com um guarda-chuva, isso é bem mais antigo. Foi este cenário que me fez sentir tão mal nas últimas horas: a hiperexploração do caso pela mídia (não que eu tenha esperado alguma outra coisa, mas…) e o fato de grande parte das pessoas ainda estar alheia ao que essa morte representa não só para a cultura pop mas para a sociedade atual como um todo.
Michael era a ponta do iceberg, a parte mais visível de um grande corpo em estágio avançado de decomposição, irreconhecível mas que, estranhamente, ninguém parece notar, e olha que ele já pedia ajuda há um tempo. “No one understands me. They view it as such strange eccentricities.” diz a letra de Childhood, que, aliás, é a sua música mais tocante pra mim. “Have you seen my childhood? I’m searching for the world that I come from.” Mais autobiográfica impossível.

Esse fato ocorreu precisamente num momento meio complicado pra mim e isso pode explicar o tom depressivo e pessimista desse post. Talvez a TPM também tenha ajudado no fato de eu não conseguir mais ouvir Stranger in Moscow sem chorar (“How does it feel when you’re alone and cold inside. Like a stranger in moscow.”). Mas acho que finalmente consegui tirar algo de muito bom disso tudo: a força pra promover uma mudança geral na minha vida. “If you wanna make the world a better place, take a look at yourself and then make a change” diria ele, e é exatamente o que vou fazer agora.
No mais, as palavras rest in peace nunca foram tão apropriadas. Espero mesmo que ele possa finalmente descansar agora.
Publicado por: Patrícia Matos em: Junho 8, 2009
Sabe aquelas músicas lindas mas que você evita ouvir para não se entristecer e só ouve mesmo quando a coisa já está feia e o único jeito é afundar na depressão de vez? (Top 5 Fundo do Poço soundtrack: Tears of the Dragon do Bruce Dickinson, Back to Black da Amy Winehouse, There’s a light that never goes out do Smiths , Gota d’água do Chico Buarque e Since I’ve been lovin’ you do Led Zeppelin.) É o que acontece comigo e este livro, Alta Fidelidade (e com o filme também, que eu conheci primeiro). Eu me identifico com o personagem principal de uma forma que não é normal, principalmente com a sua incapacidade de agir em determinadas situações. Por isso é no minimo contraditório que eu recorra a ele quando estou procurando por respostas. Geralmente eu as encontro, como nos trechos que eu vou reproduzir abaixo e que eu estava lendo ontem, deitada no sofá da sala, debaixo do edredom, numa tarde de domingo, quando não tinha ninguem no MSN pra eu encher o saco, bebendo todynho, enfim, cenário de total abandono.
I know I’m being stupid, but I don’t want her coming to my shop. If she came to my shop, I might really get to like her, and then I’d be waiting for her to come in all the time, and then when she did come in I’d be nervous and stupid, and probably asking her out for a drink in some cackhanded roundabout way, and either she wouldn’t catch my drift, and I’d feel an idiot, or she’d turn me down flat, and I’d feel an idiot. And on my way home after the gig, I’m already wondering whether she’ll come tomorrow, and whether it will mean anything if she does, and if it does mean something, then which one of us it will mean something to, although Barry is probably a non-starter.
Fuck, I hate all this stuff. How old do you have to get before it stops?
A pergunta da última sentença resume tudo. Quer dizer, quando isso vai parar? Quantas vezes eu ainda vou ter de me sentir uma idiota perto de alguém até que as coisas comecem a funcionar como devem? Além disso “eu sei que estou sendo estúpido”, se não é a frase que eu mais digo, é a que passa pela minha cabeça com a maior frequencia.
Um amigo escreveu uma vez: “Quando me apaixonava por alguém, era capaz de me sentir mais feliz entre o instante em que o sentimento era detectado e o ‘eu acho que estou apaixonado por você’ do que após o tão aguardado ‘eu também’.” Comigo é o exato oposto. Toda vez que me dou conta de que estou (arg!) apaixonada por alguém, ou gostando de, ou afim de, ou having a crush on, ou dê-o-nome-que-quiser por alguém minha vida vira um caos porque eu sei que, apartir daquele exato momento, eu vou começar a fazer coisas sem pensar. Pronto, lá vamos nós agir como idiota de novo, falar coisas estúpidas e sem sentido só pra mantêr a conversa, arrumar desculpas imbecis pra estar perto, fazer papéis ridículos só pra ser notada (felizmente eu muito raramente chego a esse último estágio, mas já aconteceu. Atire a primeira pedra quem já não fez o mesmo). Mas o que me incomoda mesmo é que é sempre a mesma coisa. It all starts the same way and it all ends up the same way. A repetição me incomoda profundamente e ver minha vida presa num círculo vicioso, num looping sem fim, é o que me angustia nesse momento.
Começo a achar que é exatamente por isso que Sinédoque me incomodou tanto. Desde que vi esse filme eu estou tentando achar a razão pela qual me senti tão angustiada com ele. É sempre a mesma história se repetindo, as vezes muda um detalhe ou outro mas isso não é suficiente pra que as coisas tomem outro rumo. Nem os personagens mudam, só quem os interpreta. Isso é Sinédoque, isso é a minha vida.
O que nos leva diretamente de volta ao Nick:
It’s only just begining to occur to me that it’s important to have something going on somewhere, at work or at home, otherwise you’re
just clinging on. If I lived in Bosnia, then not having a girlfriend wouldn’t seem like the most important thing in the world, but here in Crouch End it does. You need as much ballast as possible to stop you floating away; you need people around you, things going on, otherwise life is like some film where the money ran out, and there are no sets, or locationg, or supporting actors, and it’s just one block on his own staring into the camera with nothing to do and nobody to speak to, and who’d believe in this caracter then? I’ve got to get more stuff, more clutter, more detail in here, because at the moment I’m in danger of falling off the edge.
Penso que o problema todo está em ser coajuvante da própria vida. Por mais que você possa, vez por outra, roubar a cena e se tornar extremamente necessário, como um Heath Ledger da vida, você sempre vai precisar de um ator principal, sem o qual simplesmente não tem filme. Tem gente que faz disso um estilo de vida, ser coajuvante, é uma escolha, mas eu escolho ser protagonista, não só da minha vida mas de outra pessoa também, para mais tarde ter com quem dividir o prêmio, nem que seja o de melhor filminho romântico tipo B, daqueles bem bobinhos que terminam com “e eles foram felizes para sempre”.
Para ouvir omeu Top 5 Sad Songs clique aqui.
Cenas dos próximos capítulos: Dia desses vi um filme na sessão da tarde, Fever Pitch, e AMEI, me identifiquei horrores (além de ter a fofíssima da Drew Barrymore). Assim que terminou fui googlear a respeito e descobri que era baseado num livro do (taram!) Nick Hornby. Curious, han?!
Publicado por: Patrícia Matos em: Dezembro 28, 2008
Eu não assisti Maria Antonieta mas já me falaram tanto do filme que eu meio que já tenho ele todo na minha cabeça. Meus amigos de hoje em dia são o tipo de gente que assistiu Maria Antonieta e teve orgasmos múltiplos, mas não todos, graças a deus. Eu sei que eu deveria assistir a esse filme mas (1) meu acesso a esse tipo de filme não é nada fácil, não tenho grana pra gastar com locadoras caras e raramente vou ao cinema pra ver filmes que não sejam Batman Dark Knight ou Ironman e (2) eu tenho aversão a filmes que as pessoas acham geniais e dizem ser obrigatórios. É terrível que o fato de você ter assistido ou não a determinado filme, conhecer ou não determinada banda te insira ou te exclua de determinado grupo social, mas eu tenho me acostumado com isso e procurado encarar que o gosto (musical, cinematográfico, estético) nos posiciona dentro da sociedade. Mas ter consciência disso não me faz querer mudar minha postura de nunca seguir o gosto alheio só por seguir, pra ser aceita em determinado grupinho, o que, claro, acaba me inserindo em outro grupo, o das pessoas que curtem suas músicas sem dar a mínima para o que os outros pensam. Por alguma razão estranha todos nesse grupo parecem ouvir a mesma música… 
Mas o que eu quero dizer mesmo é que não vi Maria Antonieta até hoje em grande parte por pirraça, mas também porque sinto que tenho uma certa obrigação de gostar deste filme. Porém mesmo sem ter visto, só pelo que ouvi do filme, acho que ela fez algo que eu sonho fazer: utilizar a música como elemento da narrativa e não somente como uma simples trilha de áudio a mais. Ok, a trilha faz parte do filme, é utilizada pra dar ritmo, criar emoções, contribuir para a construção da narrativa de várias formas, mas há alguns filmes em que a música é quase um personagem, um narrador.
Por não ser trilha sonora pura e simples Sophia Coppola se permitiu utilizar músicas de épocas diferentes da que se passava a história e é este o detalhe que as pessoas mais se lembram. Por isso, também, Capitu, a última micro-série de Luiz Fernando Carvalho, foi bastante comparada ao trabalho da Sophia. Infelizmente as pessoas dão mais importância à mistura de Black Sabath com figurinos e cenários de época do que à função narrativa dessa mistura. Pior, acho que o próprio Luiz Fernando Carvalho cometeu esse erro.
No caso de Capitu a música atual tinha a ver com a mistura entre passado e presente e teria funcionado muito bem se
não tivesse sido usada tão levianamente. Eu não sei se foi sorte mas houve momentos em que o casamento entre música e imagem era perfeito como a escolha de Ironman, do Black Sabbath, para tema de Escobar. Acho que a música trazia justamente a semeste da dúvida por trás do belo sorriso do personagem. Em outros momentos era o caos, como na sequência em que a mãe de Bentinho é vestida pelas escravas ao som de God Save the Queen. Foi lindo, mas a sequencia se fechou em si mesma. Parecia que o único objetivo da cena era tocar God Save The Queen. Não tinha conexão com o que vinha antes nem com o que vinha depois, mas não foi culpa do Sex Pistols, foi culpa da síndrome de Sophia Coppola do LFC.
Mas sofrível mesmo foi a inserção de Mercedez Benz, da Janis Joplin, numa das cenas da Capitu adulta. “Quê?” , foi a única coisa que eu consegui pensar. A sorte é que Elephant Gun, do Beirut foi uma escolha tão, mas tão acertada que quase me fazia esquecer os erros anteriores toda vez que tocava.
Ruim mesmo foi a desculpa dada pelo diretor para a escolha das músicas. “Usei o rock com o desejo de atrair a garotada. O Machado ficaria muito feliz se pudesse ser entendido pelos jovens.” Ele diz que não subestima o público mas ainda acha que a única maneira de atrair os jovens é tocando rock, que os jovens não sabem ouvir outra coisa? Ok. Se terminar a série com Marcelo D2 e grande plano geral da Central do Brasil a la novela das oito foi uma estratégia para atrair os jovens não quero nem pensar o que ele faria para atrair crianças.
Publicado por: Patrícia Matos em: Outubro 31, 2008
Eu cresci em um ambiente musical dos mais heterogêneos. Na casa em que morei até os sete anos, período em que meu gosto musical se formou irreversivelmente, moravam também, além dos meus pais, minha vó e meu tio. Hoje olhando em perspectiva eu percebo o quanto as pessoas que me rodeavam e que, de certa forma, formaram a minha personalidade são pessoas extremamente ligadas à música, embora nenhuma delas tenha feito disso um projeto de vida como eu fiz, mas todos eles faziam um uso muito interessante da música. Meu tio, por exemplo, a criança grande da família, ouvia muito BRock e Bob Marley. Detalhe: SEMPRE no último volume e SEMPRE nas horas mais incômodas, geralmente quando a minha vó (mãe dele) estava passando algum sermão, ou simplesmente quando estava afim de relaxar um pouco, à sua maneira, quando as outras pessoas da casa queriam descansar, à maneira delas. Era o que se poderia chamar de resistência, hahaha (piadinha acadêmica não tão interna assim). Mas o fato é que ele era um rebelde, estava sempre desafiando as instâncias de poder refletidas naquela casa, e a música que ele ouvia não poderia ser mais coerente.
Já a minha mãe liga o rádio assim que acorda e só desliga quando vai dormir, assim como eu e minha vó. Ela gosta de MPB, Chico, Elis e , principalmente, Zeca Baleiro. Andei reparando que todas as preferidas dela tem um elemento em comum: são músicas que falam do amor numa perspectiva buarquiana, que vai de encontro com a percepção de amor presente nas músicas do Jorge Aragão, as preferidas do meu pai. Anos mais tarde (uns 15, pra ser exata) percebi que essa oposição refletia muito mais que simples diferenças de casal, ou diferenças entre homem e mulher. Explico-me: acredito que o relacionamento homem-mulher cantado pelo Jorge Aragão contém uma idéia muito particular da fidelidade.
Eu disse a você que eu tinha um amor
Quem foi que mandou você me desejar
Também adorei o que você gostou
A gente podia até continuar…
Mas só que você só me quer pra você
E só com você eu não posso ficar
Porque minha outra metade na certa vai me procurar…
(Abuso de Poder – Jorge Aragão)
Cafajeste? Talvez. Mas o fato é que essa música, assim como qualquer outra, articula uma série de valores e práticas de um determinado grupo de pessoas. No caso, a percepção de que um amor pode ser verdadeiro sem ser necessariamente o único, ou que a atração sexual por outra pessoa não implica diretamente uma falta de respeito com seu companheiro(a) reflete muito claramente um comportamento constante dos adultos com quem eu convivia quando era criança e, principalmente, do meu pai (isso mesmo que vocês entenderam!). Não tô dizendo que isso esteja certo, mas pra mim já não parece algo tão errado… e foram as músicas do Jorge que me ajudaram a entender isso, bem como as lembranças do meu pai sentado na varanda, bebendo a cervejinha dele e ouvindo essas músicas.
De qualquer forma, independente de juízos de ordem moral, essa visão, se confrontada com a percepção buarquiana do amor, guarda muitas semelhanças mas também muitas divergências. Ambos admitem a infidelidade, ou a idéia senso comum de infidelidade baseada na nossa visão pequeno-burguesa da fidelidade e do que seria um relacionamento ideal. Porém nas músicas do Chico a infidelidade é sempre retratada como um movimento de busca de algo mais duradouro e de si mesmo, enquanto que nas do Jorge ela é parte do cotidiano e não cessa quando da descoberta daquela tal “metade da laranja”. Além disso, o apelo da mulher nas músicas do Jorge está sempre ligado ao corpo e, principalmente, à etnia, à pele, enquanto que nas do Chico Buarque seus atrativos são quase de ordem intelectual, ou seja, da personalidade da mulher, de um ser-mulher que não se encerra no corpo mas que utiliza este corpo como forma de vivenciar o amor.
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada
(…)
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
(O meu amor – Chico Buarque)
Ou seja, para o Chico o corpo feminino é um meio e não um fim, o que, mais uma vez, não significa que seja mais digno, mas sim, e tão somente, uma outra maneira de ver as coisas que tem a ver com um outro contexto social e talvez até político. Contexto este que nos tempos da minha vó era outro, ô se era.
Minha vó ouvia os artistas da Rádio Nacional. Ela ainda ouve, só não mora mais comigo, o que me fez correr atrás do Orlando Silva sozinha depois de um tempo já que os discos dela não se encontram mais aqui, e é justamente dele a música que reflete o que eu imagino que seja o contexto social e a concepção de amor de pessoas como a minha vó.
Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
Que é demais para o meu coração
Acreditando
Em tudo que o amor mentindo sempre diz
Eu vou vivendo assim feliz
Na ilusão de ser feliz
Se o amor só nos causa sofrimento e dor
É melhor bem melhor a ilusão do amor
Eu não quero e não peço
Para o meu coração
Nada além de uma linda ilusão
(Nada Além – Orlando Silva)
Eu ouvia essa música no MP3 player hoje na volta da faculdade pra casa, o que , por si só, é algo extremamente anacrônico. (Orlando Silva + MP3 ! É incrível ouvir uma música tão fortemente marcada por um tempo passado em um suporte tão específico de uma época totalmente oposta. Até porque o que mais me atrai nessas músicas, além da sonoridade, do lirismo e do vibrato nas vozes é o aspecto de rádio AM que essas gravações tem e que me fazem lembrar do radinho de pilha da minha vó. E também foi essa música que me fez compreender um outro modo de lidar com os relacionamentos que verifico em alguns conhecidos meus: “Se o amor só nos causa sofrimento e dor / É melhor, bem melhor a ilusão do amor”. Apesar de lindo na teoria e de já ter pensado assim um dia, definitivamente é uma postura que eu evito. (Apesar de ser perfeitamente compreensível que esta visão tenha me influenciado por muito tempo. Nessa época eu dormia com a minha vó e o radinho dela era a primeira coisa que eu ouvia quando acordava, bem antes do Chico Buarque no rádio da minha mãe, que ficava na cozinha).
Aliás, qual dessas concepções de amor é a minha? Ainda estou tentando descobrir, assim como também estou tentando descobrir qual é a minha música. De todos esses sons que eu ouço desde a infância qual deles reflete o meu modo de ver as coisas, a minha maneira de estar-no-mundo? E uma pergunta que não quer calar: como essa matriz musical foi me levar até o pop e o heavy metal??? hehehe. Essa última pode ficar pra um post futuro mas o que realmente me levou a pensar todas essas questões acerca da música e do amor foi a versão da Luiza Possi para Tango de Nanci, uma música do Chico Buarque e do Edu Lobo. Ela conseguiu embaralhar, misturar e confundir não só o meu gosto musical como a minha percepção do amor, como se esta já não fosse confusa o suficiente. Ou será que foi justamente o contrário?
Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha
Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida e me deixou assim
Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa e cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora, por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos que nunca mais
(Tango de Nanci – Chico Buarque e Edu Lobo)
Publicado por: Patrícia Matos em: Outubro 19, 2008
A couple of years ago I went to see Al Green in concert in the Royal Albert Hall in London. At one point he left the stage and walked through the audience, still singing. As he passed me I realized that this was the first time, in 30 years as a pop fan, that I’d ever heard a star’s “natural” voice!
(FRITH, Simon. The industrialization of popular music. In: LULL, James (org.). Popular music and communication. Newbury Park, London, New Delhi: Sage Publications, 1992. p. 49)
Primeiro preciso registrar uma coisa: eu nunca tinha ido a um show sozinha. Quer dizer, eu fui a um show do Angra sozinha uma vez, mas não é a mesma coisa, porque eu sabia que encontraria (e encontrei) mil conhecidos por lá. Dessa vez não encontrei nenhum conhecido, apesar das minhas olhadinhas nervosas pra tras e pros lados. Pra completar haviam três desconhecidos na minha mesa, o que era muito esquisito e muito bom ao mesmo tempo, porque, já que eram desconhecidos eu não sentia a menor obrigação de ser cortêz ou simpática. Veja bem, não é que eu fosse anti-social, eu só não sentia OBRIGAÇÃO de socializar, o que é muito diferente. Um dos meninos puxou assunto sobre a Pitty e eu até respondi, com vontade, mas logo o assunto se extinguiu na espera pelo show (que tava demorando).
O evento começou com 40 minutos de atraso (Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão.) e o Guilherme Piva e a Bia Kutner entraram pra falar do projeto. Em determinada altura do discurso eles se referiram as beneficiandos pelo projeto, ou seja, os maluquinhos, como portadores de angústia psíquica. “Angustia psíquica tenho eu”, pensei. Mas era véspera do meu aniversário, convinha evitar certos tipo de pensamento. Aí veio o show da banda de abertura: Os Impacientes. Eles eram mineiros e tocavam pop-rock (skank? Jota Quest? argh!). Eram desritmados, o vocalista era desafinado mas, juro, foram eles que começaram a me fazer feliz naquele dia (um dia que tinha começado pessimamente e tinha tudo pra terminar pessimamente). Pode até ser clichêzão o que eu vou dizer, até porque, o Raul já cansou de cantar a loucura por aí, mas eles eram de uma SINCERIDADE que me deixou muito emocionada. Claro que isso tem a ver com um monte de discursos acerca de autenticidade e outras coisas que eu tenho pesquisado nos últimos meses (aliás, eu tenho feito alguma coisa além de pesquisa acadêmica?), e esses dados que eu carrego comigo foram responsáveis também por um certo desconforto com o início do show do Arnaldo Antunes.
Explico-me: mesmo quem não curte Titãs ou não assiste Altas Horas tem mais ou menos uma imagem do Arnaldo na cabeça. “Maluco” deve corresponder ao que a maioria pensa. Pois bem, ele estava vestido, como direi?, vestido como um paciente do Doutor Eiras. Aquilo me incomodou porque me pareceu forçado, excessivamente construído e um pouco de mal gosto. Mas eu rapidamente esqueci essas coisas todas quando ele começou a declamar suas músicas e fazer suas dancinhas epilépticas que eu me amarro. Mas Não vou me adaptar foi o que quase me derrubou (Parêntese: eu passei os dias que antecederam meu aniversário e durante o mesmo tentando so hard não me deprimir. E me vem o Arnaldo com essa!) Cada verso daquela música correspondia quase que totalmente ao que eu sentia, ou aos sentimentos que eu estava lutando contra. “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia /Eu não encho mais a casa de alegria/ Os anos se passaram enquanto eu dormia/ E quem eu queria bem me esquecia/ Será que eu falei o que ninguém dizia?/ Será que eu escutei o que ninguém ouvia?/ Eu não vou me adaptar, me adaptar”. Não me lembro se foi antes ou depois disso, mas aconteceu um momento quase mágico. Foi quando ele desceu do palco e começou a andar entre as mesas. Nessas horas eu vejo muito claramente a divisão entre meu lado racional e o emotivo: Meu olhar se revezava entre a visão do Arnaldo andando no meio das pessoas e o desespero do roadie em desenrolar o cabo do microfone pra que ele pudesse andar. Quando o cabo já estava esticado até o limite ele parou e se virou para o palco. O holofote principal iluminava a cabeça dele, acima de todas as outras, o corpo perdido entre os das pessoas sentadas, e foi justamente numa parte da música em que os instrumentos páram e fica só a voz dele. Teria tudo isso sido ensaiado? Prefiro acreditar que não. Mas o deslumbramento não pára por aí. De repente me lembrei do texto citado no começo deste post (muito nerd! putaquepariu) e me dei conta de que, enquanto ele passava bem do meu lado eu pude ouvir a VOZ dele. Não a voz amplificada, a voz PURA, sem mediação. Digamos que foi uma constatação divertida, e ultimamente minha vida anda cheia de constatações divertidinhas desse tipo, principalmente com relação à música (e o que na minha vida não tem a ver com música?).
O fato é que ao chamar a Pitty pro palco a figura do Arnaldo praticamente se apagou. E ela brilhava, como sempre. Num vestidinho roxo, maquiagem pesada demais pro meu gosto, mas linda assim mesmo. Os dois tocaram O Pulso, o que eu tinha certeza que aconteceria, mas tudo bem, foi bacana assim mesmo. E eu podia ficar aqui discursando sobre o conceito de autenticidade aplicado à figura da Pitty, mas não quero gastar meu academiquês aqui, de graça, e desconfio que ninguem está interessado. O que importa é que eu esperava uma espécie de acústico, pra poder ficar admirando a figura dela, sentada confortavelmente, bebendo qualquer coisa (acho que estou ficando velha. Gostar de assistir à shows sentada, definitivamente, é um sinal de velhice). Mas ela apresentou, praticamente, uma versão resumida do Desconcerto e eu fiquei feliz por as duas primeiras fileiras estarem ocupadas por convidados que não gostavam da música dela: eu pude assistir ao show sentada anyway pq ninguem na minha frente resolveu se levantar pra balançar os esqueletos ao som do bom e velho rock and roll. A merda são os garçons do Canecão passando na sua frente nas melhores horas né! (Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão. Como eu odeio o Canecão.) E o som? Taquepariu… nem quero lembrar pra não me aborrecer.
Enfim, ela chamou o Arnaldo de novo e os dois cantaram Televisão. Momento perfeito. Mas não mais perfeito que Pulsos. Pulsos é a minha música, definitivamente. “E um dia se atreveu/ a olhar pro alto/ tinha o céu mas não era azul”. Tem a ver com um momento da minha vida que passou (e eu sinto uma puta sensação de alívio por isso) mas eu ainda sinto um pouco os efeitos, pq ainda é bastante recente.“No cansaço de tentar/ quis desistir/ se é coragem eu não sei”. Olhei no relógio, já havia passado alguns minutos da meia-noite, já era meu aniversário. 23 anos, what does it mean? Prefiro não pensar muito nisso por enquanto e ficar só com a imagem e a voz da Pitty na cabeça. “Tenta achar que não é assim tão mau/ Exercita a paciência/ Guarda os pulsos por final/ Saída de emergência”
Publicado por: Patrícia Matos em: Outubro 15, 2008
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que eu falei o que ninguém dizia?
Será que eu escutei o que ninguém ouvia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Será que eu falei o que ninguém dizia?
Será que eu escutei o que ninguém ouvia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!
Feliz aniversário pra mim.
Publicado por: Patrícia Matos em: Fevereiro 6, 2008
Qualquer pessoa que me conheça minimamente sabe, entre outras coisas, que eu amo música. Qualquer pessoa que preste um pouco mais de atenção descobre que eu dou atenção especial às letras das músicas. Não é só o que está sendo dito, a mensagem em si, mas é, principalmente a forma, a estrutura das frases, as rimas. Existe também um terceiro fator que so me dei conta há pouco tempo que é o modo como as coisas são ditas.
Isso me lembra uma parte da palestra do Felipe Trota lá em Recife (a única parte que ficou na minha cabeça) em que ele falava do modo como a letra é interpretada pelo cantor e como isso influencia na reação do ouvinte( ou algo assim). Ninguém duvida da importancia disso e basta lembrar, por exemplo, do Peninha e de como as suas músicas fazem sucesso na mão (ou na voz) de grandes intérpretes, mas na sua voz são um desastre. Até o Chico Buarque sofre disso em menor grau. Mas quando eu penso em intérprete o primeiro nome que me vem a cabeça é Serj Tankian, vocalista do System of a Down e meu sonho de consumo.

Eu ja disse aqui e repito: eu me casaria com ele só por causa dessa voz. De uma maneira racional e técnica eu diria que ele tem controle absoluto sobre a voz, não só a técnica vocal mas as emoções que ela é capaz de transmitir. Ele passa do mais puro ódio a mais profunda solidão em milésimos de segundo. Eu quase posso sentir os seus pulmões se enchendo de ar, a pressão na garganta aumentando e as cordas vocais vibrando até sair uma nota nervosa. E logo em seguida os músculos relaxam, a pulsação fica mais lenta, a respiração mais profunda, o peito aperta e um lamento ecoa baixinho.
Depois que o turbilhão de emoções passa eu fico me perguntando “como este filho da puta consegue?”. Quer dizer, não é só o que ele está dizendo que parece ter sido escrito pra mim mas o modo como ele canta é exatamente como eu estou me sentindo. “You don’t care about how I feel. I don’t feel it anymore.” São duas estrofes extremamente simples (aliás, essa letra inteira é muito simples). Mas ele canta como se realmente quisesse matar o sentimento, arrancar do peito à força. Just like me…
Essa música inteira sou eu. Cada acorde. Aquele solo então! E é aí que entra um outro elemento que me faz pensar que a voz, na verdade, tem vontade própria, como na música do Chico Buarque. Também já disse nesse blog que provavelmente eu me identifico tanto com as músicas do System of a Down por elas terem muitos altos e baixos. Se considerarmos que a voz comanda todo o resto as vezes parece que ele está tentando “domá-la” o tempo todo. Como se estivesse tentando controlar as emoções mas nem sempre conseguisse evitar os rompantes de euforia ou ódio.
Contraditório, eu sei. Mas fica(m) a(s) perguntas(s): até que ponto ele é o dono da voz? Até que ponto ele a controla ou deixa que ela o controle? O que eu sei é que quando ele canta “I got nothing. To gain, to lose.” eu acredito. Seja lá quem esteja falando nesse momento, se a voz do dono ou o dono da voz.
” Foi revelada na assembléia – atéia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz
E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi pedendo a luz e além
E disse: Minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém”
Hey you, see me, pictures crazy
All the world Ive seen before me passing by
Ive got nothing, to gain, to lose
All the world Ive seen before me passing by
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
Hey you, are me, not so pretty
All the world Ive seen before me passing by
Silent my voice, Ive got no choice
All the world Ive seen before me passing by
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
You dont care about how I feel
I dont feel it any more
I dont see, anymore
I dont hear, anymore
I dont speak, anymore
I dont feel
Publicado por: Patrícia Matos em: Fevereiro 3, 2008
Ou sou melancólico porque ouço música pop?
Boa pergunta.
Eu cheguei a conclusão de que parei no tempo e ainda sou uma garota de 14 anos. Percebi que tenho os mesmíssimos sonhos, as mesmíssimas ilusões idiotas de quando eu tinha 14. Eu até ouço as mesmas músicas, vejam só. A primeira vista parece que a minha vida mudou. Não tenho mais a mesma rotina nem os mesmos amigos. Mas em essencia eu sou a mesma adolescente antisocial que prefere mil vezes se trancar no quarto ouvindo música do que encarar o mundo lá fora.

Descobri que tudo, absolutamente tudo o que sei sobre a vida, e sobre o amor mais específicamente, é o que as músicas dizem. Nada mais. (Aqui preciso abrir um pequeno parêntese para dar um crédito: Quem me fez pensar nisso foi o Jesus, num comentário que ele fez ontem no meu fotolog. Dizia exatamente isso. Que as músicas nos dizem como devemos nos sentir.) Tudo a minha volta é moldado pelas canções que eu escuto desde a adolescência. Até o céu parece de baunilha.
As músicas me dizem o que eu devo sentir, como eu devo agir e o que devo pensar. O cara perfeito pra mim (e pra milhões de garotas no mundo inteiro) é um backstreet boy. E todo mundo sabe que backstreet boys só existem cinco no mundo, e quatro estão casados. Ou seja, a menos que eu corra pra pegar o que sobrou (o Nick Carter), não vou ter muita escolha a não ser ficar procurando por ele em cada relacionamento. E quando o cara não for Nick Carter o suficiente virá a frustração, depois o rancor e, finalmente, o ódio.

Claro que existe outra saída. Eu poderia gritar pelo suporte técnico e dizer “No more dreams. I wanna live a real life.” Mas assim como o David eu morro de medo de altura e não sei se um céu de baunilha seria suficiente pra eu vencer o medo e pular. Nunca foi fácil pra mim acordar de sonhos, mesmo os ruins. Muito freqüentemente eu sei que estou sonhando (lucid dream) e as vezes o pesadelo é tão ruin que eu fico tentando acordar. Faço uma força enorme pra abrir os olhos, fico dizendo pra mim mesma “acorda”. As vezes eu abro os olhos o suficiente pra ver o quarto mas parece que algo está me puxando de volta pro sonho. É bizarro por que, teoricamente, saber que é tudo um sonho deveria ser suficiente pra você acordar…
Saber que o mundo não é uma música do U2 deveria ser o suficiente pra me fazer acordar. Deveria…
“Abre los ojos.”
The sea is swells like a sore head
and the night it is aching
Two lovers lie with no sheets on their bed
and the day it is breaking
On rainy days we go swimming out
on rainy days, swimming in the sound
On rainy days we go swimming out
You’re in my mind all of the time
I know that’s not enough
if the sky can crack
there must be some way back
for love and only love
Car alarm and back to sleep
you kept awake dreaming some else’s dream
coffee is cold, but it will get you through
compromise, there’s nothing new to you
let’s see colours that have never been seen
let’s go to places no one else has been
You’re in my mind all of the time
I know that’s not enough
if the sky can crack
there must be some way back
to love and only love
Electrical Storm
Baby don’t cry
It’s hot as hell, honey in this room
sure hope the weather will break soon
the air is heavy, heavy as a truck
hope the rain will wash away our bad luck
heeeey… heeeey…..
If the sky can crack, there must be some way back
for love and only love
Electrical Storm
Baby don’t cry
Publicado por: Patrícia Matos em: Novembro 6, 2007
O termo sinestesia é mais comumente conhecido como uma figura de linguagem mas pode designar também uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica em que um estímulo em um sentido provoca uma reação automática em outro. Algumas combinações de sentido são relativamente comuns como, por exemplo, ouvir um som e associar a uma cor ou imagem. Reza a lenda que Jimi Hendrix experimentava sensações sinestésicas, (mas ele experimentava também LSD, portanto seria impossível confirmar isso.) o mesmo dizem de Jim Morison.
De qualquer forma um músico que saiba explorar isso estaria adicionando novos elementos a harmonia funcional. A saber, a harmonia funcional é a parte da teoria musical que estuda os efeitos da escolha dos acordes e dos intervalos na reação do ouvinte, ou seja,o que faz com que uma música soe triste ou alegre, entre outras coisas. O uso de distorções, pedais de efeitos e sintetizadores também são instrumentos úteis para extrapolar os limites sonoros dos acordes e criar novos timbres.
Pra mim o que marca os anos 60 é esta necessidade de extrapolar os limites da música. De repente só ter uma guitarra e saber toca-la não adiantava, você precisava ter um amplificador com uma boa distorção (Hendrix construiu o seu próprio amplificador.), ter bons efeitos e ainda tocar de maneira a se destacar dos outros. Mais do que elevar o rock a um status de arte a década de 60 reinventou a arte e seus limites. O rock progressivo levaria isso a um nível além com sintetizadores e tudo o mais que desse sensação de viagem no tempo.
Por esse motivo o rock começou a desenvolver uma certa obsessão pela técnica, não só a técnica da execução mas a técnica de produção. Um músico que se preocupa apenas em tocar raramente sabe que a posição do microfone e até a temperatura que estiver dentro do estúdio influenciam no som, no timbre dos instrumentos. Por isso ter o controle de todo o processo se torna muito importante e a maioria dos músicos desta época em diante tem consciência disso. Por outro lado a técnica nunca superava a criatividade, a primeira estava sempre a serviço da segunda. O riff inicial de voodoo child , por exemplo, não seria o mesmo sem o wah-wah e o reverb, só dois dos quase cem efeitos possíveis.
Com certeza esses músicos também eram bons o suficiente para reproduzir o que faziam no estúdio ao vivo, técnica de execução não faltava a nenhum deles. Mas isso seria só o esperado e em termos de performance também era preciso romper barreiras mais do que simplesmente executar bem a música. As performances sempre tinham um quê de contestação. De fora ver o The Who destruindo os instrumentos poderia parecer apenas excentricidade ou rebeldia. Mas um instrumento pra um músico não é uma coisa a toa, é uma extensão de si mesmo. Então acho que não seria forçar muito a barra dizer que eles não queria só chocar os pais e deixar os adolescentes deslumbrados, (embora tenham conseguido isso)queriam desconstruir a própria noção de arte e da reprodutibilidade técnica. Traduzindo: o instrumento é só um meio de dar vazão a sua criatividade mas a criatividade não deve ser limitada por ele.
Levam esta idéia às ultimas conseqüências ao questionar até o limite dos sentidos e Tommy é o exemplo máximo da extrapolação dos limites técnicos,criativos e sensoriais dos anos 60. “He ain’t got no distractions. Can’t hear those buzzers and bells. Don’t see lights a flashin’, plays by sense of smell. Always gets a replay , never tilts at all. That deaf, dumb and blind kid sure plays a mean pinball.” Bem sinestésico, não?!
Publicado por: Patrícia Matos em: Outubro 4, 2007
* documentário sobre os Rolling Stones e o show de Altamont , Califórnia ,1969.
** trabalho de Comunicação e Música Popular Massiva.
Os anos 60 e 70 marcaram a consolidação do rock como gênero popular massivo. Seria impossível imaginar um festival como Woodstock e até o próprio evento de Altamont antes disso. Era um momento político e social muito agitado e talvez por isso a música dessa época seja tão enérgica e as reações a ela tão intensas. O rock começava a arrastar multidões e como já não fosse uma tarefa difícil conter essas multidões enlouquecidas pela música, o álcool e as drogas levavam as coisas ainda mais para as últimas conseqüências.
Rolling Stones (junto com Led Zeppelin) são o melhor retrato deste cenário. Só a figura de Mick Jagger já congrega uma boa parte desses elementos: sua performance que demonstrava um enorme envolvimento com a música, suas roupas e sua postura. Quando Jagger diz que “isto não é um show, é só uma maneira de estarmos juntos” traduz uma idéia de confraternização, de união através da música. Mas também retrata um pouco da “onda esotérica” que tomou conta daquela época no sentido de encarar tudo como se tivesse um propósito maior do que o aparente.
Por outro lado não há praticamente nenhum tipo de crítica social na música desta época, (depois de entregar o trabalho é que eu lembrei que a letra de gimme shelter fala de guerra, mas também não lembro de nenhuma outra.) nenhum tipo de reivindicação de classe. A contestação estava nas atitudes. O ato de uma pessoa tirar a roupa e ficar totalmente nua no meio da multidão pode significar livrar-se das amarras sociais ou apenas uma enorme necessidade de liberdade ou ainda o efeito de álcool e drogas pura e simplesmente. Mas o fato é que choca. Choca por que numa sociedade onde liberdade é só uma palavra ver alguém totalmente livre (simbolicamente falando) e não poder fazer o mesmo incomoda. Pensar que “a sua liberdade acaba onde a do outro começa” é admitir que todos são escravos de convenções sociais e principalmente das próprias convenções e por isso ao ver alguem tirar a roupa nem sempre somos capazes de fazer o mesmo.
A música dos Rolling Stones é atual por carregar essa necessidade de liberdade e diversão. Apesar de o momento não ser o mesmo e as letras nem sempre tratarem deste tema a levada das músicas traduz este sentimento de forma bastante eficaz. Musicalmente um fator interessante nos Stones é que o ritmo é marcado pela bateria e pela guitarra. (Na maior parte das bandas baixo e bateria marcam o ritmo – a cozinha – guitarra e vocal fazem a linha melódica.) Algumas vezes até o vocal têm essa “função”. Na verdade é como se nada tivesse uma função hermeticamente determinada na música, como se o ritmo – a levada – estivesse “no ar” e eles só tivessem que acompanhar. Mas ritmo e levada não são a mesma coisa. Ritmo é o compasso e o andamento em que a música está, levada é o que te faz ter vontade de dançar , ou seja, seguir o ritmo da música com o seu corpo. É como se uma força externa estivesse te levando e você não fosse capaz de resistir. E pra mim isso traduz muito melhor a idéia de liberdade do que qualquer ideologia ou teoria.
Outro fator ligado a questão da liberdade é a noção de tempo. Cada vez mais o homem moderno vive escravizado pelo tempo. A cena de Easy Rider em que o personagem de Peter Fonda joga fora o seu relógio antes de cair na estrada ,citada em Motoqueiros Selvagens em que John Travolta joga fora o celular, podem ser comparadas com a cena de Gimme Shelter em que estão todos no estúdio ouvindo Wild Horses. Ali está claro que ,ao ouvir a música, todos esquecem do tempo (relógio) e do mundo lá fora (celular). E por falar em motociclistas a cena em que , no meio daquela confusão toda, um Hells Angel dança distraidamente com sua namorada também é emblemática.
A busca por estados alterados de consciência , desligamento da noção de espaço e tempo, pode explicar o uso exagerado de álcool e drogas em eventos como esse e o fato de estes elementos sempre estarem associados ao rock. Essa mistura perigosa frequentemente resulta em rompantes de violência e por essa razão, como dito anteriormente, seria uma tarefa muito difícil conter uma multidão daquelas (ainda por cima alcoolizada) com algumas dezenas de Hells Angels (também alcoolizados).
Infelizmente Rolling Stones é a única banda desta época, que eu me lembre, que continua com a formação original e na ativa (!). ( Não, não estão com a formação original. Mas, whatever) Isso facilita que a sua música ainda seja muito tocada. Mas parece que já nos acostumamos com essa “rebeldia” toda, passamos a achar algo natural, nada além de excêntrico,os grandes shows deixaram de ser um evento e uma menina tirando a blusa na praia de copacabana parece um dé já vú , sem simbolismo nenhum. Rolling Stones virou uma caricatura sessentista (e sessentona!) bem como Hells Angels (também sessentões) viraram quase peça de museu sem sombra daquela energia (e violência) toda. O tempo passa. Fazer o que se eu nasci na época errada?
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